Porto da Arca

Planet of Lana é extremamente solarpunk


ATENÇÃO: ESSE POST CONTÉM SPOILERS DO JOGO PLANET OF LANA


Recentemente (há 3 dias) rejoguei Planet of Lana e tenho pensado moderadamente sobre ele. É um jogo lindo, de plataforma e puzzles no estilo dos jogos da Playdead (LIMBO e Inside) só que com uma vibe totalmente diferente, desenvolvido pela Wishfully e distribuído pela Thunderful em Maio de 2023.

Nele, assumimos o papel de Lana, uma garota que vivia tranquilamente em seu vilarejo junto com sua irmã, Elo. Até que, de repente, um exército de robôs caem do espaço e começam a sequestrar todas as criaturas vivas do planeta, incluindo as pessoas. Lana parece ser a única que escapa e embarca em uma jornada pra resgatar Elo. Logo no começo da aventura dela, ela encontra Mui - uma espécie de criaturinha felina que vai auxiliar ela extensivamente na jornada.

Caso não tenha jogado o jogo, recomendo MUITO que jogue pois é uma experiência linda. Por se tratar de um indie, vira e mexe ele entra em promoção e fica em um preço bem mais acessível do que já é.

Planet of Lana têm um cenário magnífico, colorido, vivido, em um mundo que faz você se sentir minúsculo. Mas a tecnologia toma grande parte desse mundo - como uma invasora, claro. Robôs são seus inimigos pela maior parte do jogo e eles são letais tanto pra Lana quanto pra Mui. Parte da aventura envolve você explorar estações abandonadas trazidas por essa civilização robótica, além de templos que contam histórias do passado do próprio povo de Lana.

É aí que as histórias começam a se misturar.

Esse game não trabalha com diálogos - semelhante a Shadow of The Colossus e ICO, os personagens falam uma língua própria. Toda a narrativa é trazida pelos cenários e pelo tom de voz dos personagens.

O jogo passa, na maior parte do tempo, a impressão de que a tecnologia é a perdição da vida - que eles vieram para nos raptar, nos separar de nós mesmos e fazer sabe-se lá Deus o que com nós. E por um breve período, isso é verdade. Até que Lana e Mui conseguem se conectar com essa tecnologia.

Lá pro meio da jornada, Lana encontra um amuleto que permite que Mui controle (ou se comunique, não sei) com as criaturas vivas do jogo (que são bem variadas e eu adoro o design delas) e Lana encontra um bracelete que permite que ela se conecte com as máquinas do jogo, controlando elevadores, imãs e até alguns robôs que originalmente são nossos inimigos.

De acordo com os templos que encontramos durante o jogo, os humanos migraram praquele planeta graças a tecnologia. Os robôs guiaram eles até a vida daquele planeta e os mantiveram seguros lá. Perto do fim, podemos ver algumas máquinas tomando conta de alguns bebês, dando banho neles e impedindo que eles se machuquem. Até esse ponto tudo é bem confuso. Elas não pareciam querer machucar as pessoas, apenas protege-las de uma ameaça inexistente.

No fim, eles chegam ao núcleo das máquinas - e conseguem doma-lo com o bracelete de Lana e o amuleto de Mui combinados. Nesse momento, Mui "morre". Em luto, abraçada ao corpo do felino e cantarolando a melodia que vinha sendo utilizada até agora, Lana se conecta com o núcleo. Através do sentimento de perda, de amor, de luto, de tudo que pode ser apenas descrito como humano, ela se conecta com as máquinas de novo e Mui é trazido de volta.

Eu agradeço muito a Wishfully, inclusive, por ter dado tempo ao jogador. Tempo de sentir o mundo ao redor, tempo de entender o mundo ao redor, tempo de entender o que os personagens estão sentindo. A cena em que Lana fica abraçada ao Mui, pensando ter perdido ele, é lenta e pessoal. E eu aprecio muito isso.

No fim, todos estão de volta ao vilarejo, convivendo com os robôs como faziam há milhares de anos atrás. Eles ajudam na pesca, na reconstrução das casas, auxiliam o cozinheiro e brincam com as crianças. A humanidade e sua tecnologia se tornaram uma só - sem a intrusão indesejada dos construtos, sem abrir mão das tradições que aquele povo vinha mantendo. Tudo se encontra em uma união muito bonita e o fim, Elo, Lana e Mui, sentadas e observando a vasta, verde paisagem de seu lar, os créditos sobem com a linda música Horizons de Takeshi Furukawa.

O final do jogo e sua mensagem me surpreenderam bastante, foi uma puta subversão de expectativa. Não criamos a tecnologia pra nos fazer mal. Tecnologia é progresso, uma ferramenta pro nosso conforto e pra nossa evolução. Tecnologia não foi feita pra nos restringir e ainda podemos viver MUITO bem em comunhão com ela.

Como citado antes, o jogo é muito diferente de LIMBO (que eu gosto bastante) e Inside (que eu amo!) por conta do tom que ele passa. Esses jogos são dark, sombrios, têm uma atmosfera opressiva e são quase monocromáticos. Planet of Lana é colorido, acolhedor, relaxante, existem vários momentos em que você tá só andando pelo cenário e curtindo a paisagem. É uma subversão do próprio gênero criado por esses jogos e eu acho que eles deveriam andar de mãos dadas.

Você pode acariciar o Mui nesse jogo btw. 10/10

#videogames